Leonardo Lichote - Globo Online

No CD 'Novo mundo', o Picassos Falsos depura o cruzamento que sempre fez entre tradição e pop.

Sim, eles são uma banda nascida nos anos 80. E sim, eles estão de volta. Mas, antes de qualquer conclusão precipitada, eles não têm nada a ver com a onda nostálgica oitentista que garante a sobrevida de muitos de seus colegas de geração. Lançando neste sábado na Fundição Progresso o CD "Novo mundo" (Psicotronica), com músicas inéditas, o Picassos Falsos mostra que está em forma e, mais que isso, depurando o cruzamento tradição-pop que fez de "Supercarioca", de 1988, um disco cultuado.

- Mantemos o caminho interrompido depois de "Supercarioca". É claro que, depois de tanto tempo, há um apuro maior do som e também um apuro meu como compositor - avalia Humberto Effe, principal compositor, voz e violão do grupo, que completa a formação com Gustavo Corsi (guitarra), Romanholli (baixo) e Abílio Rodrigues (bateria). - "Supercarioca" era um caldeirão, com uma mistura que está se solidificando em "Novo mundo".

Mistura inclui baião, programações e muito samba

A mistura de "Novo mundo" inclui baião levado em guitarra com sabor funky e com trecho de rock sessentista ("Presidente Vargas"); violão folk com programações eletrônicas ("Avenida"); samba de melodia de caminhos originais, cuidadosamente sustentada por guitarras e teclados ("Zig zag 2"); samba de melodia de caminhos originais, cuidadosamente sustentada por guitarras e teclados ("Zig zag 2"); sambalanço de suingue rock ("Porta-bandeira"); lamento jazzy ("O filme"); samba com sotaque Novos Baianos na malícia e no estranhamento de timbres ("Rua do desequilíbrio").

- Somos identificados com a música brasileira e, mais que isso, com o Brasil. Queremos o pop e o típico - diz Effe, que vê parentesco entre a música do Picassos e a de artistas que vieram mais tarde, como Los Hermanos, Pedro Luis e A Parede e Chico Science. - Fomos o final de uma geração que apontou claramente para alguma coisa que iria se realizar plenamente nos anos 90. Em 88, a mentalidade era outra, lutamos na gravadora para fazer uma música pop brasileira. Hoje existe uma nova MPB, aberta a tudo. Uma música fragmentária, típica da virada de século.

Dentre os fragmentos que compõe o som do Picassos, o samba ocupa posição de destaque. Ele atravessa "Novo mundo", em diferentes intensidades, e é explicitamente celebrado na releitura de "Me diga seu nome", de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves. Celebrado, vale ressaltar, mais pela lembrança de Ismael do que pela gravação, que sem reverências desnecessárias traz a música para o século 21.

- Ismael é um compositor muito importante para minha formação - conta Effe. -Adoramos samba. É minha linguagem como compositor, é nossa linguagem como banda. Acho que aí está uma diferença nossa para uma banda como Los Hermanos: eles passam pelo samba, nós queremos nos encontrar com ele.

'Presidente Vargas' nasceu numa viagem de metrô

As letras seguem o espírito fragmentário. Passam por elas referências concretas à geografia carioca como a Avenida Presidente Vargas, mitos (carnavalescos, como a porta-bandeira, ou bíblicos, como Jó), romances permeados de imagens urbanas ("Talvez eu tenha melhor companhia/ Sem a chuva fina do seu beijo"), reflexões como "O paraíso existe/ Até onde eu possa acreditar/ Na letra do samba-canção".

- Não consigo e não procuro fechar assuntos. Na verdade, esse é um valor de nossa música - acredita o compositor, que tem Dé Palmeira como parceiro em quatro canções do disco. - A inspiração vem de fontes diversas. "Presidente Vargas" nasceu quando eu estava no metrô e ouvi a voz do sistema de som anunciando a estação "Presidente Vargas", numa entonação que na hora me inspirou a canção. Em "Zig zag 2", pensei nas músicas políticas de Gil, como "Procissão". Já "O filme" é Copacabana.

A relação com o Rio é reafirmada no encarte, com os quatro integrantes da banda andando nas ruas do Centro. Numa das fotos, um cartaz num canto anuncia "Aprenda rápido teclado, violão, violino, canto". Seria publicidade ou auto-ironia?

- Foi sem querer - diz Effe, rindo. - Exatamente como a foto da capa do "Supercarioca", que só depois que notamos que mostrava a sede da "Tradição, Família e Propriedade", uma cabeça-de-porco e outros elementos que de certa forma diziam alguma coisa a respeito da nossa música.



Voltar