Hugo Sukman - O Globo

Brasil no rock e rock no Brasil

Antropofagia do Picassos e radicalismo roqueiro do Ira! revivem tendências dos anos 80


Envelopadas sob o "rock brasileiro", tendências se digladiavam esteticamente nos anos1980. Afinal, o que havia em comum entre a teatralidade praiana de uma Blitz, o pós-punk de uma Legião, o blues-rock de um Barão, o peso irreverente de um Ultraje, a influência negra de um Paralamas e a ebulição de influências de um Titãs era uma geração brasileira, a primeira, influenciada de fato pelo rock.


É significativa a coincidência do lançamento simultâneo de CDs de duas bandas tão distintas e que exemplificam tão bem diferenças estéticas: "Novo mundo" (inaugurando a gravadora independente Psicotronica) do carioca
Picassos Falsos, retornando depois de 16 anos sem gravar; e o "Acústico MTV" (Sony) do paulista Ira!, que entre altos e baixos não pára de gravar desde 1985.

Picassos e Ira! são tão diferentes quanto o samba "Rua do desequilíbrio", destaque do CD do primeiro, do rock "Envelheço na cidade", sucesso do segundo. Grosso modo, e isso é exemplar nos dois discos, o Picassos é uma banda de música brasileira influenciada pelo rock - o que a permite fazer sambas, sua maior influência, e outros gêneros - e o Ira! é uma banda de rock que nasceu em São Paulo por acaso - poderia muito bem fazer o que faz no Tennessee ou num subúrbio de Londres.

É antropofagia do Picassos de um lado, que busca trazer para uma linguagem contemporânea um Ismael Silva ("Me diga seu nome", parceria com Nilton Bastos, no disco grafado errado sob o honroso nome Nilton Santos, significativo ato falho), mesclando cavaquinho e eletrônica. E o "universalismo" do Ira!, abrindo seu CD com uma versão em português do clássico punk "Train vain", do Clash, "Pra ficar comigo".

O "Acústico" do Ira! é emocionante para fãs da banda. A sonoridade acústica, calcada nos violões de Edgard Scandurra e na bateria de André Jung, não retirou peso das canções. O espírito é de celebração, nas participações de Samuel Rosa (a balada "Tarde vazia"), Paralamas ("Envelheço na cidade") e, sobretudo, Pitty ("Eu quero sempre mais"), "filha" espiritual do Ira! em seu gosto por peso.

Há novidades, como o novo vocal de Nasi para "Flores em você", uma intervenção inspirada ou outra de piano ou cello, e inéditas legais como "Flerte fatal" (de Scandurra), mas o convencionalismo dá o tom, como na maioria dos "Acústicos".

Já em "Novo mundo", o Picassos justifica toda a expectativa que gerou sua volta, ansiada desde que a banda se desfez após gravar o seminal "Supercarioca". Sem este LP de 1988,  Chico Science dificilmente seria o que foi e uma banda como Los Hermanos não seria tão boa e brasileira. Mas além de injetar brasilidade (sobretudo carioquice) à postura rock, o quarteto (Humberto Effe, voz; Gustavo Corsi, guitarras; Romanholli, baixo; e Abílio Rodrigues, bateria) está tocando muito melhor e de forma mais madura do que quando parou.

As composições de Humberto estão cada vez mais dialogando com a tradição brasileira. "Porta-bandeira" (parceria com Dé Palmeira), talvez o melhor exemplo, é jorge-beniana na música (pesado sambalanço), buarquiana na letra ("Mas hoje vi o paraíso/No meio da cidade linda/Um grande espelho pro sorriso/Dessa porta-bandeira"). Mas sem perder o sotaque carioca e muito contemporâneo que caracteriza a banda.

Entre as 11 canções inéditas, há de ecos nordestinos ("Presidente Vargas") a rock ortodoxo ("Eletricidade"), tudo unido pela escrita incomum de Humberto. A maior influência, contudo, é mesmo do samba, seja ele sofisticado, como "Zig zag 2" (Humberto e Dé) ou de uma simplicidade irresistível, "Rua do desequilíbrio", dos versos definidores do Picassos, "Ando na rua procurando outro som/Pra desafiar minha tristeza". Tão brasileiro, carioca e atual quanto "Tanta gente hoje descansa em paz/E um rock star agora é lenda" ("Flerte fatal") mostra onde o Ira! está.


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