O Globo – Segundo Caderno
João Pimentel
26/11/2001

A volta da versão cubista do BRock 80

Picassos Falsos, grupo que fundiu suas guitarras com ritmos regionais, retorna à cena

Uma das bandas da segunda geração do rock nacional dos anos 80, representante da linhagem carioca, mas que diferentemente das outras de sua geração fundiu o rock com ritmos nordestinos, samba, soul e funk, o Picassos Falsos retoma a partir de sábado uma curta mas profícua carreira interrompida depois do segundo disco, “Supercarioca”, de 1988. Um show curto, de 13 músicas, misturando sucessos como “Carne e osso” e “Quadrinhos” e novas composições, na última festa Loud! do ano, no Cine Íris, marca o que para os componentes da banda é uma continuação, não apenas uma volta embalada pela enxurrada de retornos como os grupos Capital Inicial, Plebe Rude, Ultraje ...
Mentor do reencontro do Picassos, o baterista Abílio Rodrigues faz questão de desvincular a banda das companheiras de geração:
― Não tem a ver com este cenário, nunca nos preocupamos em fazer parte de nenhum movimento. Tem a ver com o nosso momento.
Humberto Effe, vocalista e letrista do grupo – completado pelo baixista Luiz Henrique Romanholli e o guitarrista Gustavo Corsi – prefere lembrar o momento da separação para justificar o retorno:
― Logo depois do “Supercarioca”, a gravadora quis que gravássemos um novo disco. Não aceitamos e essa discussão , aliada a uma crise criativa, acabou antecipando a separação – conta. – Resolvemos dar um tempo que termina agora. Hoje estamos longe daquela coisa de rock dos anos 80 e livres do rótulo aos quais nunca nos apegamos.

Novas composições e um samba de Casquinha

A volta ou continuação, ao contrário da maioria dos retornos, traz novas composições e a inclusão de um samba de raiz no repertório.
― A gente ainda está formatando o nosso som. Estamos tocando inéditas que eu trouxe, pensando em criar o nosso cancioneiro, trabalhar para a preservação da canção – explica Effe. – Partindo da noção básica do autor, ou diria que estamos mais para Beatles que para Doors. O “Supercarioca” induzia a isso, mas não completamente.
O próximo passo desse encontro, segundo ele, inevitavelmente será um novo disco:
― É o caminho natural. Temos coisas a dizer.
O processo de composição também sofreu modificações.
― As músicas surgiam na hora, quando estávamos ensaiando. Muitas vezes a forma ofuscava as canções.
Romanholli também prefere o processo atual de construção das canções.
― Hoje fazemos de forma diferente. As harmonias estão mais trabalhadas, mais legais. É, ao mesmo tempo, mais simples e mais ousado.
Outra mudança é a presença do percussionista francês David Villefort no palco.
― Sempre usamos percussão nos disco, mas no palco éramos um quarteto. Não tínhamos esta preocupação – lembra Effe.
Mas se a criação sofreu mudanças no perfil dos músicos? Para o vocalista, que lançou um disco solo com seu nome em 1995, a maturidade é a palavra-chave.
― Eu descobri o valor da disciplina. Como cantou Renato Russo: “disciplina é liberdade”. Se você quer muito fazer alguma coisa você acaba conseguindo. Talvez por isso nunca tenha abandonado a música. A disciplina me fez mais compositor.
E desta disciplina surgiram três novas canções: o baião “Presidente Vargas” (“Até quando os meus passos vão passar por aqui?” / Presidente Vargas / Será que ainda existe História dentro de ti?”), “Até onde eu for seguir” e o rock “Sol de domingo” (incluído no CD solo de Frejat, “Amor pra recomeçar”).
Mas nem só de composições próprias é feita a volta do grupo. O Picasso foi buscar no repertório de um dos bambas da Portela, Casquinha, o partido alto “Cabelo danado”.
― Eu ganhei um disco do Casquinha de presente e quando percebi que conhecia várias músicas que eu nem sabia que eram dele. Esta eu achei a cara da banda – diz Humberto.
O grupo sempre fez referências a compositores do samba como Noel Rosa e Ismael Silva. Mas o fato de recorrer a compositores do passado não significa que o grupo não acredite na produção atual.
― Temos músicos de muita qualidade. Mas o público ainda é ligado no que é produzido lá fora. Eu que já fui roqueiro radical, hoje não troco dez Strokes por um Mestre Ambrósio – admite Romanholli.
Para ele, no entanto, o público também é preguiçoso:
― O acesso é fácil. Temos a Internet, boas lojas de discos e livrarias. Falta interesse

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