Arthur Dapieve

Picassos de volta para o futuro

Sejamos bem pouco políticos. Parte dessa infindável “volta do rock brasileiro dos anos 80” deve-se não a mérito próprio dos grupos e intérpretes mas à indigência comparativa do cenário pop da década seguinte. O problema é que nessa onda, estimulada pela indústria fonográfica, estimulada pela mídia surfista, muita coisa ruim voltou boiando para a praia. E, então, a própria idéia de uma superioridade do BRock sobre seus rebentos soa falsa, mero passadismo de uns caras mais ou menos calvos quase chegando ao 40. O retorno à ativa dos Picassos Falsos, nesse sentido, é um breve contra a nostalgia precoce. Porque Humberto Effe (voz), Gustavo Corsi (guitarra), Luiz Henrique Romanholli (baixo) e Abílio Azambuja (bateria) já eram anos 90, anos 00, anos 10, no tempo em que o Crepúsculo de Cubatão servia seus drinques “Chuva ácida”.
Mesmo estando longe dos discos desde outubro de 1988 – quando foi lançado pela BMG seu segundo LP, “Supercarioca”, hoje merecidamente reconhecido como um pioneiro na mestiçagem entre rock e samba, trabalho admirado, por exemplo, pelos membros dos Hermanos – o grupo nunca deixou de estar na área. Tanto na influência quanto na apresentação de novos trabalhos. Se Romanholli passou de vidraça a estilingue, vivendo do jornalismo, e Abílio foi para o comércio, de instrumentos, óbvio, Humberto continuou compondo, gravando um CD solo em 1995, e Corsi tornou-se um músico requisitado por Kátia Bronstein, Tony Platão ou Marina Lima, sem falar da titularidade na bem-sucedida Rio Sound Machine. “Humberto Effe”, o disco lançado pela Virgin, por sinal, só hoje começa a ser valorizado. Faz todo sentido, portanto, que os Picassos cogitem incorporar a linda faixa “Onde há desejo não há cruz” (“Eu não sei rezar, abro os braços para o céu / Quero agradecer”) ao próprio repertório.
Este também traz novidades criadas para o reencontro do dia 1º de dezembro no Cine Íris. Além de “Sol de domengo”, parceria de Humberto com Frejat, que já havia aparecido como um samba-rock no recente disco solo do cantor e vocalista do Barão Vermelho, há “Até onde for seguir”, “Rua do desequilíbrio”, “Presidente Vargas” ... E uma versão adequadíssima para “Cabelo danado”, do sambista Casquinha, da Portela. No material novo, ensaiado exaustivamente num estúdio do Rio Comprido, dá para notar uma mudança do modo como o grupo leva adiante seus trabalhos. Fiéis ao clima deprê dos anos 80, muitas velhas músicas não se resolviam como canções, isto é, com refrão etc. Eram quase obras-em-progresso, sustentadas por climas que não raro se assemelhavam a pontos de macumba interpretados pelo Bauhaus (embora seja difícil, ainda hoje, traçar paralelos estrangeiros para os Picassos Falsos). Agora, tanto “Sol de domingo” quanto “Até onde for seguir” (“Só me resta aplaudir / Quando você chegar / Só seu jeito mais calmo / Acalma meus olhos / De tanto buscar algo novo”) são impulsionadas mais pela melodia que pelo arranjo. E “Presidente Vargas” é um baião arrockado.
Quanto aos arranjos das canções de “Picassos Falsos” (1987) e “Supercarioca”, estão melhores do que os originais, sem fugir deles. Isso é o fruto exatamente do tempo decorrido. Não só os quatro estão mais maduros, como músicos e seres humanos: souberam extrair de suas composições os elementos que nela já apontavam para o futuro, para a fusão do rock’n’roll com gêneros nativos do Brasil, para a ferocidade rítmica que pode ser ouvida em muitas bandas do Nordeste ... Assim, “Retinas”, “Marlene”, “Quadrinhos”, todos aqueles sucessos do underground carioca – do qual os Picassos foram, junto com o Hojerizah, a expressão mais bem-acabada – ressurgem até mais modernos, atuais e pertinentes do que no momento em que nasceram. A troca do peso stoneano por uma leveza quase folk em “O homem que não vendeu sua alma”, apenas por exemplo, simboliza a nova sensibilidade. Os Picassos que, na verdade, nunca foram Falsos, adquirem o status de clássicos neste momento em que as rádios só tocam latas de sopa Campbell’s.


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