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Marcus Marçal

Quando fevereiro chegar ...
Picassos Falsos ao vivo no Ballroom 23/08/2002

Nem a mais otimista viúva dos oitenta poderia imaginar o quanto foi bacana essa volta dos Picassos Falsos. Tudo bem, não foi tanto assim: o som começou emboladaço, fora a heresia máxima da guitarra baixa... Mas um número de fãs da banda pra lá de considerável saiu da toca e prestigiou em peso e retorno do quarteto ao palco. Além disso, os onze anos desde o fim da banda poucas vezes deu as caras durante o set. A pilha da audiência parecia a mesma do último show do grupo aqui no Rio junto com o Finis Africae no Circo Voador que rolou há um tempão – a MTV ainda nem havia dado as caras por aqui na época.

E como foi bastante apregoado, uma das coisas mais bacanas da volta do PF foi justamente o fato de eles se recusarem a apresentar somente o repertório das antigas. Isso ficou claro desde o início dos trabalhos com o sambinha “Cabelo Danado”, canção que abriu esse show na Loud! A música, desconhecida da maioria dos presentes, também serviu como aquecimento para a bagunça que iria rolar dali em diante.

Logo depois Humberto Effe sacou seu pandeiro e meteu a porrada no instrumento, dando a deixa para “Retinas”, desde sempre uma das músicas mais festejadas dos caras. Não sei se foi o álcool que começava a correr mais forte, mas a impressão minha e a de alguns era a de que Humberto parecia um filho de santo, reiterando as conexões com a cultura negra brasileira tão entranhada em seu trabalho. Coincidência ou não, estava todo de branco e com a cabeça raspada. Além disso, no final da música ficou dançando em círculos enquanto cantava repetidamente os versos finais de sua cantiga. Se não teve nada a ver, pelo menos vale a risada pela minha gafe!

O embolado foi ainda mais forte quando o frontman pegou o violão e a banda atacou de “Bolero”, uma das mais instigantes músicas dos “supercariocas”. Pena que a guitarra de Gustavo Corsi ainda continuava um pouco mais baixa que o adequado, mas a cozinha de Luiz Henrique Romanholli e Abílio Azambuja garantiram a retaguarda com eficiência. Conforme havia anunciado, o set baseou-se quase inteiramente no material oriundo de Supercarioca como “Rio de Janeiro”, “O Homem que não Vendeu sua Alma”, “Marlene” e a faixa-título. Na penúltima, o vocalista ainda arriscou uns improvisos sobre a melodia original registrada em disco, igualzinho aos bons tempos, o que fazia com que parte da galera parasse de cantar a letra e se ligasse um pouco mais na performance do camarada.

Inserções de clássicos do cancioneiro nacional também marcaram presença no meio das músicas, algumas delas ligeiramente modificadas como foi o caso de “Quadrinhos” e “Supercarioca”, que começou com uma leve distorção baixo de Minhoca até a entrada do resto da banda. Do primeiro disco, além da já citada “Quadrinhos”, também rolou a obrigatória “Carne e Osso” e a excelente “Últimos Carnavais”, dedicada ao primeiro baixista do grupo Caíca, já falecido “mas presente em espírito e em algumas linhas de baixo”, conforme declarou Humberto antes da música.

No cômputo geral, valeu a certeza de que a banda retorna em momento adequado, promissor para novas viagens musicais – talvez esse show tenha sido apenas a primeira etapa da jornada. As canções novas executadas pelo quarteto (“Sol de Domingo”, “Até Onde For Seguir” e “Presidente Vargas”) lembram um pouco a fase solo de Humberto Effe logo após o término da banda e estão realmente mais elaboradas, um pouco distante da tosqueira bacana que rolava nos melhores momentos da carreira do grupo. Mas essa evolução musical é necessária para que essa reunião renda ainda novos frutos, quem sabe um disco novo...

Os caras prometem novos shows e a inserção de mais material novo, como também possivelmente releituras para canções gravadas no primeiro álbum solo do vocalista, como “Onde há Desejo não há Cruz” e “Os Dois Lados de Tudo” em versão Picassos Falsos, assim como rolou nas últimas apresentações da banda há “milanos”. De qualquer forma, esse único show por si só já valeria um disco ao vivo com toda a certeza. Se você não foi, perdeu! Mas não esquenta, o carnaval ainda não passou por aqui


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