Isto É - 23 de junho de 2004
 Apoenan Rodrigues

Portinaris verdadeiros - Picassos Falsos pinta o rock de brasilidade no ótimo CD Novo mundo


Nada de revival oitentista, muito menos concessões ao grande e antigo sucesso revitalizado por modernidades eletrônicas. Para marcar seu ressurgimento após 16 anos, a banda carioca Picassos Falsos oportunamente preferiu se cercar da riqueza de ritmos do País, colorindo o rock com brasilidade autêntica no ótimo álbum Novo mundo, que inaugura o selo Psicotronica.
É o primeiro CD depois que o grupo se desfez, deixando no currículo apenas dois discos, Picassos Falsos (1987) e Supercarioca (1988). Segundo seus integrantes, o novo trabalho significa a retomada de um caminho interrompido e agora finalizado com mais maturidade. Afinal, nenhum dos quatro músicos ficou todo este tempo parado. O vocalista e letrista Humberto Effe lançou em 1995 um bom disco com seu nome, já anunciando a ligação elétrico-percussiva. Também compôs para Skank e Roberto Frejat, entre outros. Gustavo Corsi formou uma banda chamada Rio Sound Machine e emprestou sua guitarra para gente como Marina Lima e Fernanda Abreu. Romanholi trocou, temporariamente, o baixo pelo jornalismo e Abílio Rodrigues só teve contato com a bateria na sua loja de instrumentos. Foi ele, aliás, que tomou a atitude de reagrupar os músicos.

No entanto, só depois de dois anos é que veio a convicção de que deveriam tocar juntos novamente. A espera valeu a pena. Picassos Falsos mergulhou na percussão brasileira, recorreu ao forró e ao samba e realizou um casamento frenético com o rock'n'roll, como prova o baião-metal Presidente Vargas . Em Rua do desequilíbrio , o sacolejo do samba encontra a junção do bandolim com uma gingada programação de bateria. A canção é cheia de recursos de estúdio, mas soa muito natural na sua alegria rítmica, característica que só os Novos Baianos conseguiam com sua mistura acústico-elétrica.

Em seus novos rumos musicais, Picassos Falsos poderia ter caído na rede da chatice do samba rock, a praga de ruído baixo, porém incessante, que tomou conta dos modernos da MPB. Seria o rumo certo para angariar os encantos da crítica musical. Mas felizmente a viagem tropicalizada da banda rendeu sonoridades mais criativas. Você não consegue , por exemplo, encarna um funk-reggae anabolizado; O filme , um cool jazz; a faixa-título, uma heavy-balada; e Eletricidade , um curto-circuito rock'n'roll. De falso, a banda só tem a brincadeira do nome.

© Copyright 2004 Editora Três



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